30 anos sem Moco

José Carlos Pace foi imortalizado ao ter seu nome cravado no principal autódromo brasileiro. O motivo da homenagem remonta a uma tarde do dia 26 de janeiro de 1975, quando enlouqueceu a torcida presente ao circuito de Interlagos, ao tornar-se o primeiro piloto do Brasil a vencer o Grande Prêmio local e promover a primeira dobradinha brasileira na história da Fórmula 1 (Emerson Fittipaldi foi o segundo). Aquela foi sua única vitória e seu ponto mais alto na categoria. E é por isso que as F1 Girls não poderiam deixar passar em branco a passagem dos 30 anos de sua morte neste dia 18 de março para lembrar a história do piloto.

Nascido em 06 de outubro de 1944, Pace tinha dois apelidos na sua roda de amigos – Mão de Paca, por conta de um problema físico; e o mais conhecido deles: Moco, adquirido por conta de seu estilo caladão. Quando criança, Pace costumava criar seus próprios carrinhos de rolimã para brincar com os amigos Fittipaldi nas ruas do bairro paulistano do Pacaembu. Sua carreira nas pistas começou nos anos 60. Correu de kart e foi campeão brasileiro de Marcas em 1967, pilotando um Renault-Gordini (o título foi dividido com o piloto Luiz Pereira Bueno).

Com o apoio dos pais, donos de uma tecelagem no bairro de Ipiranga, em São Paulo, e acalentando o sonho de chegar à Fórmula 1, Moco mudou-se para a Inglaterra com sua família. Em 1970, sagrou-se campeão inglês da Fórmula 3. Sua estréia no campeonato foi em 15 de março daquele ano, em Snetterton, guiando um Lotus 59. Conquistou quatro vitórias e os pontos que obteve nos torneios nos quais participou só foram inferiores àqueles obtidos por Dave Walker, piloto da equipe oficial da Lotus.

O desempenho do brasileiro rendeu um convite por parte de Frank Williams para disputar a Fórmula 2 em 1971. A temporada foi difícil, mas a estrela de Moco resolveu brilhar justamente em Ímola. A vitória conquistada de forma heróica depois de recuperar várias posições, projetou o nome do brasileiro e chamou a atenção do comendador Enzo Ferrari.

O fundador da escuderia italiana convidou Pace para um almoço em Maranello e falou sobre o passo e a presença de Chico Landi na Ferrari. Sobre uma possível parceria entre o piloto e a equipe na Fórmula 1, Eduardo Correa conta em seu livro Pela Glória e Pela Pátria: “o fato é que nenhuma proposta concreta por parte da Ferrari foi apresentada a Moco que, em um jantar numa boate em Salzburgo, em 73, foi um dos que ajudaram Lauda a se convencer de que pilotar para a Ferrari era um bom negócio".

A carreira na Fórmula 1 -
Se o relacionamento com a Ferrari não passou de uma paquera, com algumas outras equipes foi além. Depois de ser sondado por várias escuderias no final de 1971, Moco aceitou a proposta de Frank Williams no dia 31 de dezembro e pilotou um March 711. A equipe era a mais pobre da Fórmula 1; no entanto, Pace surpreendeu. Nas quatro primeiras corridas, pontuou duas vezes e foi mais rápido que seu companheiro Henri Pescarolo, presente na Fórmula 1 e na equipe de Frank Williams desde 1968.

Na Espanha, Moco foi quatro segundos mais rápido que Lauda em um March novo e melhor estruturado. Terminou em 6º, após ter passado em 21º na primeira volta. Na Bélgica, largou em 10º e chegou em 5º, sendo o único entre os dez primeiros classificados com um carro do ano anterior. Nas demais etapas, acabou enfrentando vários problemas e não repetiu os resultados do início do campeonato. Os destaques foram a prova em Mônaco, quando terminou a prova em 17º, oito voltas atrás do líder, debaixo de um temporal e sem a viseira!!!; e na Inglaterra, quando foi atingido por trás por Carlos Reutemann e precisou abandonar a corrida quando estava bem posicionado.

Em compensação, Pace recebeu convites das equipes Matra, Gulf Mirage e Ferrari para participar do Campeonato de Marcas. Moco assinou com a Ferrari e ficou na categoria até o final de 1973, competindo ao lado de pilotos como Jack Ickx, Clay Regazzoni, Mario Andretti e Ronnie Peterson. Apesar disso, continuou na Fórmula 1. Desta vez, na equipe Surtees. Um dos únicos momentos arrebatadores aconteceu em Nurbürgring, onde o que se viu foi Moco “voando baixo”.

O piloto chegou em 4º, apesar das dores nas costas provenientes de um acidente na prova anterior, em Silverstone. Na Áustria, Pace foi além e terminou em 3º, com pneus usados em duas outras corridas. Nos Estados Unidos, Moco agiu como Senna anos depois. Ao passar pelo local onde segundos antes o piloto e amigo François Cevert havia sofrido um acidente, Pace parou para tentar socorrê-lo. Cevert não resistiu aos ferimentos e Moco ficou abalado. “Nós somos loucos! O que estamos fazendo aqui?”, repetia aos prantos. No final da temporada, Pace foi escolhido o quarto melhor piloto do ano pela revista Autocourse, atrás apenas de Jack Stewart, Ronnie Peterson e Emerson Fittipaldi.

Para 1974, Moco recebeu convites para correr em outras equipes, mas preferiu continuar na problemática Surtees. Sua esperança em ver o carro melhor desenvolvido e, portanto, com mais capacidade de lhe permitir apresentar um melhor desempenho nas pistas não se tornou realidade. Na Argentina, na África do Sul, na Espanha, na Bélgica, em Mônaco e na Suécia, abandonou ou foi mal. No Brasil, chegou em 4º.

Insatisfeito, deixou a equipe e não correu na Holanda. Alegando indisciplina, Surtees não permitiu que ele corresse por outra escuderia. Entrou em cena, então, Bernie Ecclestone. O atual poderoso chefão da Fórmula 1 promoveu a entrada de Pace na Hexagon-Goldie, que lhe deu um Brabham para pilotar na França. Entretanto, Moco não conseguiu se classificar para a largada. Na Inglaterra, ocupou o lugar deixado por Ricky von Opel na Brabham e terminou na 9ª colocação.

Na Áustria, estava em segundo quando um anel do sistema de alimentação do carro se rompeu e Pace foi obrigado a abandonar a prova. O anel foi retirado, banhado a ouro e Moco o colou ao volante do carro nas provas seguintes. Na Itália, terminou em 5º; no Canadá, abandonou a corrida; e nos Estados Unidos, chegou em 2º, no dia em que completava 30 anos de idade.

O jornalista Lemyr Martins relata em seu livro Os arquivos da Fórmula 1 que Moco estava com “o rosto iluminado” antes da prova. Procurou saber o motivo da alegria e Pace respondeu: “Está tudo aqui”, batendo na cabeça. Após o término do Grande Prêmio, que rendeu o bicampeonato para Emerson Fittipaldi, Martins procurou novamente por Pace que, finalmente, explicou tudo. Conta o jornalista: “Comecei a entender o enigma: o capacete titular não tinha a seta da flecha, o que estava ali era apenas uma faixa amarela. E fiquei surpreso quando ele me confidenciou que seu falecido pai tinha aparecido na noite anterior desaprovando o desenho”. Moco, então, decidiu e – de gilete em punho – alterou o formato da flecha.

O apogeu – O bom final da temporada 74 seguiu em 1975, ano em que Pace viveu seus melhores dias na Fórmula 1. Moco dizia que considerava aquele como seu primeiro ano na categoria. A amizade com Bernie Ecclestone se aprofundou com o convívio na equipe Brabham, que incorporou 142 modificações no carro para aquela temporada. Na Argentina, largou em segundo, mas acabou abandonando a prova quando o motor quebrou. No Brasil, veio a consagração e, provavelmente, o momento mais marcante de sua carreira e o mais lembrado por seus fãs.

Nos treinos, conquistou a 6ª colocação no grid. Já na largada, ganhou três posições. Algumas voltas depois, ultrapassou Reutemann e, sem conseguir acompanhar o ritmo do líder Jean Pierre Jarier, seguiu sossegado na prova em segundo. Na 32ª volta, Pace assumiu a 1ª colocação, com Emerson Fittipaldi em 2º, guiando uma McLaren. Sem freios, Moco conseguiu levar o carro até a bandeirada e alguns acreditam que, se mais voltas houvessem, Emerson o teria ultrapassado.

O curioso é que, na volta de desaceleração, Moco cometeu um erro de traçado que só não rendeu uma punição porque Fittipaldi e Jochen Mass, o terceiro colocado, resolveram fazer o mesmo caminho. Sem o aparato que há hoje em dia, a primeira dobradinha brasileira foi comemorada em um pódio composto apenas por alguns degraus de cimento construído sobre uma das muretas dos boxes. A torcida invadiu a pista, enquanto José Carlos Pace agitava longamente a bandeira do Brasil, com o macacão arriado até a cintura, ocultando o nome de seus patrocinadores. Esse era o Moco!

Ao longo do ano, foi pole position pela primeira e única vez na carreira, na África do Sul, onde terminou em 4º, após cravar a melhor volta da prova. Na Espanha, seguia em 2º quando houve um acidente. Muitas pessoas começaram a considerá-lo o favorito ao título. Mas aí a Ferrari passou a apresentar melhores resultados. Moco declinou um pouco e foi apenas o 3º em Mônaco, o 5º na Holanda e o 2º na Inglaterra. Ao final, marcou 24 pontos e terminou em 6º no mundial de pilotos.

O declínio, o adeus e a homenagem – Em 1976, Pace viveu um inferno na Fórmula 1 e só conseguiu marcar sete pontos: um na Espanha e três na França e na Alemanha, encerrando a temporada em 14º. Um ano depois, as coisas pareciam dar sinais de melhora. Mas não foi o que aconteceu. Na Argentina, largou em 5º e chegou em 2º, desmaiando dentro do carro logo em seguida. No Brasil, liderava a prova quando foi tocado por James Hunt. Foi para os boxes e depois saiu da pista e da prova onde o asfalto estava se soltando e muitos carros bateram. Na África do Sul, os pneus o tiraram da corrida.

Duas semanas depois, Moco voltava para a fazenda de um amigo quando uma tempestade provocou o acidente fatal. O avião em que viajava espatifou-se contra algumas árvores. Pace, seu amigo dono da fazenda, Marivaldo Fernandes, e o piloto Carlos Roberto de Oliveira morreram na hora. O corpo de Pace foi reconhecido pelo problema físico em sua mão.

Chegava ao fim ali a vida de um homem que encantou os brasileiros nas pistas. Nos 73 Grandes Prêmios que participou, Moco esteve na 1ª fila sete vezes, conquistou uma vitória, cinco voltas mais rápidas, 58 pontos, esteve presente no pódio em seis provas e liderou 50 voltas em sete corridas.

Em 26 de dezembro de 1985, veio o reconhecimento. Interlagos passou a se chamar Autódromo Municipal José Carlos Pace.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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